quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A MENINA OBEDIENTE relatado por Célia Yamasaki

Conheci Célia Yamasaki nos projetos Movimentação e Programa Jovens Urbanos, onde trabalhamos juntos tempo suficiente para nos tornamos amigos. Educadora, coordenadora, ágil e eficiente no que se propoe a fazer, possui aquela paixão por filmes e histórias que mentes inteligentes constumam ter. Foi uma das primeiras a ler FANTASMAS & DEMONIOS DE SÃO MIGUEL. Presente em uma de nossas apresentações, nos presenteou com um causo sobre a menina, que depois de morta, aparecia sobre o telhado da casa em que morava. A narrativa singular deu origem a três versões. Esta é uma delas. Tempos idos. Nem asfalto nem luz elétrica em São Miguel. Dona Tereza era uma mulher boa, mas tratava a filha de forma ruim, porque a menina era lenta e lesada. Ela queria que a filha fosse como ela, ágil em tudo, trabalhadeira, mas a menina não era. A regra chegou aos 14. Virou mulher tarde, a imprestável. Toda vez que errava, a mãe colocava castigo. Se tava frio, enfiava a menina num tanque de água, só com a cabeça pra fora. Se tava calor, botava ela sentada no telhado de cerâmica em cima da casa. Dona Tereza má. Não tardou, a menina adoeceu. Ficou de cama. Por vezes, pensando ser preguiça, a cama era o chão do alpendre, era a sombra da jabuticabeira morta no terreiro, e ali de junto da árvore ela morreu. A doença dela foi a maldade da mãe. Os sãomiguelenses sabiam. Mas quietaram. Quem pariu Mateus que cuide, não é? E foi. Passado sete dias do enterro, alguns moradores ouviram dona Tereza gritando dentro de casa. Tentando expulsar alguém. Correram pra acudi. Mas não tinha ninguém na casa. “Ela não quer me deixar! Ela não quer me deixar!” – gritava ela. Tava doida, a dona Tereza. Por vezes brigava com a filha morta dentro do tanque de água. Outras, gritava com o telhado da casa. Avisaram seu irmão de Mogi, e ele levou dona Tereza embora. A casa ficou lá, umas décadas ainda, antes que se fosse derrubada. E era nas noites de lua e nos dias de tempestade feia que a gente via a menina de dona Tereza por ali. Ou sentada em cima do telhado, ou com metade do corpo dentro do tanque de água. Tava lá, esperando a mãe voltar e mandar ela sair do castigo. Obedecia a mãe malvada em vida. Aguarda ainda suas ordens depois de morta.