quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O PONTO DE ONIBUS DO CEMITÉRIO DA SAUDADE - SEGUNDO SACHA ARCANJO

O Cantador, compositor, artista nato, meu amigo Sacha Arcanjo me narrou este causo. Eu fui só escrevendo. De longe se sente o estilo do baiano nesta narrativa, de perto a poética sobrenatural de um dos artistas contemporaneos mais importantes. O PONTO DE ONIBUS DO CEMITÉRIO SEGUNDO SACHA ARCANJO Nito, de dona Rute, contou que tava no bar que ficava ali na Pires do Rio, numa esquina que hoje é floricultura. Se apressou pra ir embora porque tava dando meia noite. De longe avistou o ônibus e viu umas quatro pessoas no ponto. Ele correu, gritando: “Dá sinal pra mim.” Ninguém se mexeu, nem olhou pra ele e nem deu sinal. Parecia o ultimo ônibus da noite e ninguém ia pegar? Ele, correndo, deu sinal e o motorista parou. Nito embarcou indagando: “Pô, pedi pra dar sinal e ninguém deu sinal ali. Povo ruim.” E o motorista respondeu: “Quem? Não tem ninguém no ponto.” Nito se dirigiu pra catraca e ficou olhando pro ponto. Realmente não havia ninguém. Ficou encucado: “Como é isto? Não to louco... Não to bêbado.” Não se conformava. Perguntou se o cobrador não tinha visto as pessoas. Disse-lhe que não também. Ele pagou a tarifa, passou pela catraca e quando olhou para o fundo, as quatro pessoas estavam sentadas na ultima fileira de bancos. Nito, que já era banco, ficou amarelo e sentou por ali mesmo, quietinho, doido que seu ponto chegasse logo. Saltou na padaria Sandra (Marechal Tito), nem olhou pra trás, atravessou correndo o Jardim São Vicente até chegar em sua casa. Nunca mais quis ir naquele bar. Sacha Arcanjo 25/09/13 17h35

domingo, 8 de setembro de 2013

O HOMEM DA CAPA PRETA - UMA HISTÓRIA ASSUSTADORA DO ARTISTA VISUAL AURISDEIVE CARVALHO

O Artista Aurisdeive Carvalho esteve em uma das apresentações teatrais de FANTASMAS E DEMONIOS DE SÃO MIGUEL e presenteou a todos com uma bela narrativa fantástica sobre um homem de capa preta, chapéu e três metros de altura. A narrativa durou bem uns 15 minutos e prendeu a atenção de todos, devido ao talento de Deive e o tom realistíco do caso. Reproduzi aqui resumidamente, mas isto nada é perto da narrativa do artista. Prometo em breve registrá-la de forma mais fiel e, se possível, com a intensidade original. Seja por video, seja por audio, este homem da capa preta voltará a ter nossa atenção. Boa leitura. Quatro jovens de São Miguel. Garotos na casa dos 20, esportistas de artes marciais, pacíficos e educados visitavam o litoral de Bertioga, certa vez. Caíram na farra durante um bom tempo e perderam noção não apenas da hora, como também da distância de seus albergues. Como não havia mais transporte naquela hora morta, decidiram ir a pé para a pousada. No entanto, preferiram evitar a rodovia, uma vez que na noite escura algum motorista podia atropelá-los, mesmo no acostamento. Pegaram informação com um caiçara sobre um caminho pela praia que sairia ali pelos lados do Sesc Bertioga. Seguiram o caminho. Quando se afastaram bastante de tudo, andando pelas areias da praia, em um trecho entre o mar e a mata, um deles percebeu um toco plantado ali perto de onde as ondas morriam, bem a frente do grupo. Ele achou estranho aquele caule logo ali, naquela posição. Devia chegar perto de três metros. Comentou com os amigos, que olharam o estranho objeto e o esqueceram em seguida. Continuaram atravessando a faixa de areia, até ficarem paralelos ao toco, a uma distancia de dezenas de metro. O rapaz olhou novamente para o tronco, intrigado com o motivo que levou alguém a enterrá-lo logo ali. Mas seus pensamentos foram interrompidos, pois ele teve a nítida impressão de que o tronco estava se mexendo, como quem acompanha a movimentação de alguém, virando o corpo. Chamou a atenção dos colegas para o fato, mas eles riram e disseram que ele estava inventando coisas. Continuaram a andar, e o rapaz mais uma vez olhou para o toco. E o mesmo havia se movido. Estava andando lentamente e, ao andar, revelou uma forma humana, com uma capa que agora balançava ao vento e um chapéu cartola. Quando percebeu a reação do jovem, abriu os braços e começou a correr pela areia. O jovem alertou os amigos e todos saíram em disparada, fugindo da estranha, sombria e assustadora criatura que corria mais que os jovens atletas e estava quase os alcançando, quando eles entraram numa região da praia iluminada por luz elétrica. A criatura sumiu de repente como que por mágica. E eles respiraram aliviados por um tempo, mas não muito. Pois o jovem sensitivo viu que a criatura se aproximava pelo outro lado, pela contra luz, movendo-se lentamente para se aproximar do grupo. Correram assim que o alarma foi dado, e só pararam quando chegaram ao Sesc Bertioga. Um casal passou pela faixa de areia em direção ao estranho ser. Eles tentaram alertar mas, antes que pudessem se fazer audíveis, o casal mergulhou na escuridão da noite, em direção ao homem de capa preta. Nossos jovens não tiveram coragem de penetrar outra vez naquela escuridão. Seguiram para o albergue. Na manhã seguinte, foram à aldeia dos pescadores e perguntaram sobre o casal e sobre um certo homem de capa preta. Os caiçaras nunca viram homem nenhum de capa preta. E muito menos um casal.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A MULHER ATRAS DO POSTE (BABA YAGA DE SÃO MIGUEL)

No dia 23 de Agosto, durante a segunda apresentação do espetáculo FANTASMAS & DEMÔNIOS DE SÃO MIGUEL, a Arte Educadora Tânia Lawall nos contou uma história fantástica, ocorrida em sua infância entre São Miguel e Itaim Paulista. Esta narrativa é baseada na sua história. A MULHER ATRAS DO POSTE (Baba Yaga de São Miguel) A pequena Nina, 7 anos, morava com os pais e os irmãos numa casa humilde no Itaim Paulista. Haviam mudado a pouco da área litorânea para a periferia da cidade. Naquela época, as melhores escolas da região estavam em São Miguel Paulista. Entre elas, a Escola Estadual Dom Pedro I e a Escola Estadual Carlos Gomes. Nina iniciou os estudos nesta segunda escola. Devido às duras condições da família durante os primeiros anos na região, muitas vezes a irmã de Nina trazia a pequena andando pela São Paulo-Rio até chegar ao centro de São Miguel e cruzar o bairro até o Carlos Gomes. Foi em uma dessas idas e vindas que Nina viu, certa tarde indo para o anoitecer, aquela estranha mulher vestida de preto e roxo desbotado as seguindo e, eventualmente, se escondendo atrás de um ou outro poste. Era uma mulher bem velha, de pele branca amarelada, olhos claros e cabelos longos, quebradiços e grisalhos. Nina a percebeu pela altura do bairro de São Vicente e alertou a irmã que, ao ver a figura escondendo-se atrás de um poste e fitando-as, não resistiu e fez a pilhéria: “É a Baba Yaga, Nina. Ela veio te buscar.” Nina era facilmente impressionada por histórias de terror. Passou noites sem dormir e uma semana sem querer ir pra escola. A mãe, ao descobrir, deu uma sova na filha mais velha e, com muito carinho e paciência, fez a filha perder o medo da Baba Yaga de São Miguel. E Nina voltou a ir pra escola normalmente, sem mais ser perturbada ou seguida pela estranha mulher. Os meses passaram e, certa noite, olhando ocasionalmente um velho álbum de fotografias da família, Nina começou a chorar e chamou a mãe. Mostrou a foto de uma mulher no álbum e disse que era a mulher atrás do poste. “Não pode ser, filha.” – disse a mãe – “Esta era uma amiga da vovó lá de Cubatão, mas ela morreu quando você ainda estava na minha barriga.” A irmã mais velha de Nina aproximou-se, olhou a foto e confirmou a figura. A morta da foto era a Baba Yaga de São Miguel. “Por que ela tava me olhando, mamãe?” “Não sei, filha, mas ela sempre dizia pra vovó que um dia ia cuidar de seus netinhos...”