domingo, 4 de agosto de 2013

O FANTASMA DA MÃE DE WALESKA

O FANTASMA DA MÃE DE WALESKA Waleska era uma garota cheia de vida. Sempre a vi sorrindo na escola. Ela era uma coleguinha de classe, na terceira série primária da Escola Estadual Ataulpho Alves, na Vila Rosária. As crianças, pobres como eu, a considerava rica, porque sua família tinha melhores condições financeiras. A mãe de Waleska era uma mulher linda, muito linda, mesmo. E Waleska também era linda como a mãe: pele jambo clara, olhos vivos e castanhos, cabelos bem cuidados. Se apaixonar por ela ou sentir inveja eram os únicos caminhos possíveis diante da sua beleza e alegria. Mas a perfeição teve uma perda terrível. Certo, a professora disse à sala que a mãe de Waleska havia morrido. Não recordo se doença ou acidente, mas a jovem e bela mãe tinha deixado o mundo. Fui ao velório na casa dela, mas não entrei. Vi o caixão de longe, no meio da sala. E Waleska esta lá, ao lado da mãe morta, mas não estava chorando. Tinha o mesmo sorriso de sempre no rosto. Ficou uma semana sem ir pra escola e, quando voltou, parecia que não tinha perdido nada. O mesmo sorriso, a mesma atitude perante a vida. Isto em si já assustava porque, para uma criança, não deve haver horror mais tenebroso que perder a mãe. Mas ela se comportava como se não houvesse perdido. E os meses passaram. Poucos meses. Um dia, perto da festa de São João, nossa foi premiada com um passaporte para o Play Center e outros brindes, graças a prendas arrecadadas. A professora escreveu o nome dos alunos em pedaços de papel para realizar o sorteio. Colocou-os em um saco plástico e balançou. Pediu para um aluno pegar um nome. Ele sorteou Waleska. A professora sugeriu que Waleska ficasse com um prêmio menor, porque a família podia pagar seu passaporte. O nome foi colocado de volta ao saco plástico, e outro aluno foi chamado para tirar o papel. Waleska foi novamente sorteada. Mais uma vez foi feito o sorteio, e mais uma vez saiu o nome de Waleska. “Não precisa, a tia Ana já falou que vai comprar.” – disse Waleska, mas ninguém estava falando com ela, aparentemente. Todos a olharam, e ela sorriu. O sorteio aconteceu mais uma vez, e outro aluno foi sorteado. O segundo prêmio, que não era um passaporte da alegria, ficou para Waleska. Assim, sucessivamente, Waleska passou a ter sorte em tudo, como se tivesse um anjo protetor ao seu lado. Nunca deixou de sorrir. E nunca sentiu falta de sua mãe. 04/08/13 – 21h56

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