terça-feira, 20 de agosto de 2013

CEMITÉRIO DA SAUDADE 1: FANTASMA INDIGNADO

Cresci nas ruas do cemitério da Saudade. Ainda garoto, entre sete e nove anos, eu e meus amigos andávamos pelas quadras, lendo nome de falecidos, olhando as fotos em preto branco, sépia ou um horripilante colorido desbotado. Lá, também encontrávamos, ao bisbilhotar sepulturas, pedaços de caixão e, com sorte, um ossinho aqui ou ali. Certa vez, vimos uma lata enterrada na cabeceira de uma sepultura recém desocupada. Desenterrei a lata e, dentro, havia dois bonecos de panos mergulhado em melado. Se era um feitiço de amor que não podia ser mexido, alguma união desamarrou-se ali. Outra vez, também enterrado, encontramos um livro de São Cipriano. Levei pra casa e li, apavorado, durante noites e noites. Não me lembro o que aconteceu com o livro, perdeu-se no tempo. Evidentemente, durante minha vida, fui em alguns velórios ali. Vários. Primos, amigos, amigos de amigos, ente queridos de amigos. Mas, notavelmente, nada de sobrenatural nos enterros. Somente a tristeza e a alegria que encontramos em qualquer outro velório. A não ser por uma vez... Uma única vez, quando entrei em um velório que não devia entrar, por não conhecer o morto ou qualquer ser vivo presente. Aquele velório e aquele morto me amedrontam até hoje. Foi em 1995. Eu tinha entre dezenove e vinte anos. Estávamos montando “Berenice”, de Edgar Allan Poe e havia a cena de um velório no espetáculo. Há tempos eu não ia em um, e decidi, para o bem da pesquisa, visitar o Saudade aquela tarde. Um velório acontecia na capela central. Estava cheio de pessoas, muita gente mesmo. Observei de longe, em respeito à família. Mas, aos poucos, a curiosidade passou por cima do respeito e eu invadi a capela. Assim que ali entrei, o peso do luto desceu sobre meu corpo. Ambiente carregado de tristeza e luto. Aquele defunto deve ter sido muito amado em vida. Aproximei-me do caixão em tons amarronzados e suas manchas negras. Olhei o defunto. Era um negro. Um mulato, pra ser mais exato. Hoje diria eu ter ele uns trinta anos. Cabelos, sombrancelhas e bigode negros como ébano. Vestia um terno azul marinho. No rosto havia marcas de hematomas. Nas mãos... Nas mãos... Não: na mão. O defunto só tinha uma mão. A esquerda. No lugar da mão direita nada tinha: o pulso estava enfaixado. Morte violenta, possivelmente. À minha frente, uma mulher chorando a dor da perda. Decerto lembrei algum gracejo e, se não ri, fiz a piada mentalmente para o morto. Uma babaquice juvenil, decerto, mas não saiu de minha boca. Minto; murmurei algo para o morto. Um gracejo. Uma anedota vulgar sobre a amante que chorava sobre seu corpo. Não demorou muito, um padre apareceu, realizou os últimos rituais fúnebres, o caixão foi fechado e o morto sepultado no solo do cemitério, em uma quadra um tanto quanto afastada do portão. Fiquei até o final, e depois fui para a praça do Morumbiznho, ficar com amigos. Não comentei nada com ninguém e, de fato, esqueci a experiência por horas. Fui pra casa à noite, assisti algo na TV e deitei-me para dormir. Dormir. Durante o sono, o sonho começou: eu sentado a uma mesa, e o defunto mulato à minha frente, sem uma das mãos, cheio de hematomas, me olhando indignado com minha audácia de invadir seu velório e fazer piadas sujas sobre sua companheira. Eu não sabia o que dizer. Eu desviava o olhar mas, quando olhava pra o outro lado, lá estava o mulato, sério e indignado. Não sei precisamente quanto isto durou mas, quando o terror ficou insuportável, eu acordei. Abri os olhos no escuro do meu quarto. Reconheci que era um sonho e respirei aliviado. Me remexi na cama e, ai de mim, não estava sozinho. Tinha alguém sentado na minha cama. Alguém de terno escuro. Gelei. Vi que ele mexeu a cabeça no escuro e, ali no escuro, me fitou indignado. No meio do meu pavor, abri minha boca e pedi desculpas mil vezes, me recriminei, confessei meu erro e chorei, chorei até que os primeiros raios de sol invadiram o quarto pelas frestas da janela e aquele fantasma indignado desvaneceu-se no ar. Logo cedo fui ao Saudade e acendi velas para o mulato. Rezei muito também. Fiquei com medo que ele retornasse naquela noite. Mas ele não veio. Nunca mais apareceu. Exceto agora, nas minhas obscuras recordações.

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