quinta-feira, 15 de agosto de 2013

OS SINOS DOS MORTOS

A capela de São Miguel, construída em 1622 é palco de muitas histórias de assombração. Esta é apenas uma delas. Sabe-se que nas décadas entre 1930 e 1970, a capela esteve abandonada pelo Estado, pela Igreja e pelos Fiéis. Era apenas a capela velha. No entanto, isto não impediu que famílias mais abastadas e mais informadas da região, saqueassem o templo religioso para usar seus apetrechos como enfeites em suas casas e palacetes. Uma destas relíquias furtadas foi o pequeno conjunto de sinos da capela, que eram utilizados para chamar os moradores para as cerimônias funerárias – eles eram tocados pelos coroinhas, sacristão e pelo padre, que passavam pelas ruas, convocando os irmãos das almas para seguirem o corpo até sua última morada. A Igreja nunca apontou ninguém. Tão pouco o poder público local. Os próprios moradores da redondeza ficaram felizes por não ouvirem aquele som sombrio e agourento os convidando para assistirem os sepultamentos. Mas houve um fato interessante ocorrido na família de um certo Adamastor. Este homem, dono de um próspero comércio local, freqüentador de certo partido político muito em voga na época, tinha uma bela esposa, uma filha linda com seus dezessete anos e um menino de seis anos. Na igreja matriz, um banco era reservado com seu nome, bem próximo ao altar. Uma família feliz e admirada pelos moradores. Durante um desfile no aniversário do bairro, ali na Marechal Tito, Adamastor fez um discurso sobre o futuro depender da infância bem cuidada e passou o microfone ao filho, perguntando se ele gostara da bicicleta Monark ganhada há pouco. “Mais do que dos sinos, papai.” Adamastor riu, suando frio, e passou o microfone a outra personalidade, que já emendou a conversa no sorteio das bicicletas. Pouca gente sentiu-se desconfortável, pois a maioria não relacionou nada com nada, mais preocupada em ganhar os prêmios do que em ouvir o discurso político. Mas dizem os presentes, que uma senhora avançada em idade, de pele derretida e macilenta, aproximou-se de Adamastor e disse. “Eles não querem mais. Mas quando soar, eles fazem a troca.” Nem quem ouviu, nem Adamastor entendeu aquilo. Continuaram os festejos do último domingo de Setembro. Um mês depois, a jovem filha de Adamastor morreu. Não se sabe como. Acordaram um belo dia, e a menina estava gelada em sua cama. Os médicos não souberam explicar. Não demorou muito, foi a vez da bela esposa. Da mesma forma, mas à luz do dia. Sem vida na banheira da suíte do quarto do casal. Estava somente ela, o menino e a empregada em casa. À policia, a empregada disse que estava lavando a roupa e o menino estava brincando no salão de jogos. A vida de Adamastor perdeu toda sua luz. Havia agora apenas o pequeno filho mas, ai, a morte também o levou, para desespero e tristeza eterna do pai. Adamastor vendeu o palacete e sumiu de São Miguel. Não sabe-se para onde foi. Os móveis leiloados, a casa vendida, os animais doados, sua história foi completamente apagada. A história trágica percorreu o bairro por muitos anos seguidos, até que se apagou graças à crescente onda de violência com episódios mais apavorantes que esta tragédia familiar. Duas personagens, porém, ainda resistem e mantém viva a chama que pode representar o desfecho e o motivo desta tragédia. Uma delas é um dos coveiros, que deitou o caixão do menino na sepultura do Cemitério da Saudade. Disse ele que o caixão estava muito pesado para uma criança de seis anos. A outra, é a empregada da família, que jura ter ouvido sinos antes da morte de cada ente querido do senhor Adamastor.

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